Reflexões sobre a Existência de Deus
"There are more things
in heaven and earth, Horatio, than are dreamt of in your philosophy"
- Hamlet, acto 1, cena V, William
Shakespeare
1. Tomemos como ponto de partida, o facto
de o Homem ser mentalmente livre, ou seja, dotado de livre arbítrio.
Este facto, aparentemente simples, poderá explicar a razão
pela qual Deus não se mostra através de expressões evidentes, dando lugar ao
conceito de fé.
Se Deus se mostrasse visivelmente, não seríamos
verdadeiramente livres, mas apenas bem ou mal comportados, mais ou menos
disciplinados.
Sem a certeza da existência de Deus, existe lugar para a
consciência, para opção entre o Bem e o Mal. Se a existência de Deus fosse
evidente, não teríamos esta liberdade.
Grande parte dos que que não têm fé, baseiam-se no facto de
não acreditarem no que não vêem. Se vissem porém, não eram livres.
Esta argumentação não prova a existência de Deus mas elimina
racionalmente um dos motivos principais pelo qual muitas pessoas não acreditam na
existência de Deus.
Poderá então deduzir-se que a existência de Deus não é demonstrável pela razão humana, caso contrário estaríamos perante uma contradição com o ponto anterior pois Deus não se mostrava, mas permitia que fosse provada a sua existência, caíndo novamente na situação de ausência de livre arbítrio.
Sem a referida liberdade, o Homem teria uma dignidade mais
reduzida, cujo mérito se restringiria à capacidade de cumprir melhor ou pior,
os preceitos decorrentes de uma determinada noção de Bem e de Mal.
Essa noção não seria necessariamente idêntica em todos os
seres humanos nem sequer coincidente com a actual. Ainda assim é altamente
provável que, qualquer que fosse o grupo social considerado, existisse uma
moral vigente, por duas razões elementares que poderão não ser dissociáveis:
por surgir de modo instintivo e/ou por constituir condição indispensável para o
funcionamento e sobrevivência desse grupo social. Dado que estamos a supor a
ocorrência de manifestações evidentes da existência de Deus, a noção de Bem e de Mal seria também
provavelmente influenciada pela forma que essas manifestações tomassem.
Nesse contexto, e independentemente dos parâmetros que
regessem o comportamento considerado correcto, seria evidente que Deus, o
Criador por definição, “desejaria” que esse conjunto de regras fossem cumpridas
da melhor maneira possível pois tal asseguraria uma maior prosperidade da sua
Criação e portanto seria também evidente, ou pelo menos altamente receado, que
viesse a ser feita justiça, após a vida, quanto ao maior ou menor cumprimento
dessa moral vigente.
Podemos então interrogar-nos se a possibilidade do Mal, não
será apenas uma consequência indispensável para o livre arbítrio que foi
concedido aos homens e, como foi dito, para a sua dignidade.
2. Consideremos as seguintes questões : O
Universo é finito ou infinito? E o tempo?
Não conseguimos imaginar nem uma coisa nem outra. Não
conseguimos sequer perceber integralmente o conceito de infinito ou a sua
aplicação a qualquer situação real. Também a idealização de um Universo finito
gera paradoxos que não nos é possível resolver.
No entanto, estas questões têm sentido e as respectivas
respostas teriam impacto em múltiplas áreas do conhecimento. As consequências
da incapacidade do Homem em apreender o conceito de infinito poderão ser
largamente estendidas, ao ponto de levantar a hipótese de este constituir a
pedra angular das grandes interrogações e paradoxos com que a Humanidade se
depara.
Se a nossa percepção de espaço e tempo está posta em causa
através desses aparentes paradoxos, como podemos achar que a racionalidade
explica tudo e deve reger, de modo exclusivo, a nossa cosmovisão?
Cientes deste facto, deveríamos abrir a possibilidade de
integrar nos nossos raciocínios lógicos, conceitos não demonstráveis e
habitualmente tidos por não objectivos, tais como a Fé, a Verdade, a Bondade ou
porque não, a Beleza ou o Amor.
Numa era em que o uso da razão constitui um verdadeiro
dogma, é conveniente demonstrar que a sua utilização exclusiva se traduz numa
visão limitada sobre a realidade ainda que este excesso de objectividade
constitua historicamente uma reacção a atitudes, que a antecederam, em que a
sua falta conduzia a perspectivas não menos limitadas.
3. Os número imaginários poderão também
ajudar a compreender o conceito de fé.
Resumidamente, um número imaginário (i) foi definido matematicamente
como sendo aquele cujo produto por si próprio dá o resultado de -1 ou, o mesmo
é dizer, a raiz quadrada de -1. Claro que este número não existe porque tanto
-1 x -1 como 1 x 1 dão o resultado de 1. Podemos, no entanto, definir que esse
número (i) existe, e nesse caso teríamos por consequência que i x i = -1, i + i
= 2i, i x –i = 1 ou ainda que e*xi = cos(x) + sin(x)i (equação de Euler, em que
* significa ‘elevado a’), de demonstração mais complexa.
Estas noções constituem um pilar da Matemática. Não é
possivel conceber o mundo científico de hoje sem a descoberta dos números
imaginários e a sua aplicação prática é enorme, não substituível por um qualquer
outro conceito.
E tudo isto a partir de algo que não existe, segundo a nossa
comprensão das operações mais básicas com número inteiros.
A analogia com o conceito de fé, é directa. Se partirmos do
princípio que Deus existe, ainda que contrária à nossa tendência para não
acreditar no que não nos é dado ver, poderemos chegar a um tipo de conhecimento
não alcançável de outro modo. Segundo o ponto de vista não crente, estamos a
partir de um princípio errado e portanto as conclusões que daí tirarmos estarão
postas em causa. No entanto, já se viu que com os números imaginários se passa
o mesmo, o que segundo esse mesmo princípio racional nos dá a legitimidade para
o fazer.
E é de facto extraordinário onde se pode chegar, reflectindo
a partir desse princípio que Deus existe. É possível tirar conclusões que
poderão naturalmente parecer estranhas a quem nunca ‘entrou’ por esse caminho.
S. Anselmo dizia que "acreditava para poder saber".
À semelhança das reflexões anteriores, este raciocínio não
prova a existência de Deus mas contesta um dos argumentos contra a sua
inexistência.
4. A existência de Deus, quando tentada
provar pelo lado afirmativo baseia-se essencialmente na Criação. Quem criou o
que existe?
Não as plantas ou os animais (estes são certamente uma
consequência) mas sim, o Universo. Tudo começou ao que parece, com uma enorme
explosão há 15 mil milhões de anos mas, o que existia antes? Ou então, ‘quem’ a
produziu? Ainda que essa explosão tenha resultado de um sistema cíclico de
implosões e explosões de Universos, ‘quem’ iniciou este ciclo?
‘Sentimos’ instintiva, e também objectivamente, a
necessidade de existência de um Criador, sensação esta que é totalmente
legítima, na medida em que já vimos que a racionalidade pura será sempre
insuficiente neste âmbito.
É essa necessidade que poderá estar na origem da tendência
natural e comum entre povos com diferentes origens, raças e culturas, para
acreditarem na existência de uma entidade sobrenatural.
5. É notável que a dúvida sobre a
existência ou não de Deus permaneça ao fim de tanto tempo, de séculos de
reflexão. Existem diversas manifestações externas, como aparições e milagres, mas
que se mantêm na fronteira extremamente estreita de não provarem
inequivocamente a existência de Deus, apenas reforçarem a convicção dos que
acreditam, sem no entanto, forçarem os não crentes a fazê-lo. Também a evolução
científica produz sucessivamente novas descobertas que até agora nunca
colocaram realmente em causa o lugar da fé.
Não sendo uma prova da existência de Deus, estes factos
podem constituir um ponto de partida para a reflexão.
6. Surge ainda a grande questão do
“porquê” ter Deus criado o Universo, que por sua vez (com ou sem intervenção
divina) gerou homens capazes de decidir sobre o Bem e o Mal, auto-conscientes,
limitados fisica e mentalmente, e que se questionam sobre a Sua existência.
Esta questão, por não ter uma resposta óbvia, e no entanto parecer pertinente,
afasta algumas pessoas da fé, face à ausência de um sentido e de um fim para a
Criação.
De um ponto de vista racional, seria certamente mais fácil
chegar à ideia de fé se fosse possível compreender o objectivo da Criação. Mas
este conceito humano de uma determinada acção ter um fim, não é, neste caso, aplicável.
Um ser todo-poderoso, com a capacidade de criar um Universo, não tem que ter
objectivos pois quaisquer que eles sejam, deverá poder alcançá-los. O porquê de
Deus ter criado o Universo constitui uma questão que não tem que ter uma
resposta e não deverá portanto constituir um argumento de não-fé.