Uma Crónica
 
   
 

Em 1653, uma mulher de nome Maria Padilha, mãe solteira, abandonou os seus dois filhos rapazes, de 3 e 4 anos, neste local, a mais de 3 léguas de distância da sua casa. Passou a tarde junto das crianças que brincavam com os mantos de folhas caídas dos castanheiros e atiravam pequenos paus para um ribeiro que corria perto. No final dessa tarde do fim de Novembro, despediu-se discretamente dos miúdos que estavam entretidos, gravou um sinal da cruz num castanheiro próximo e pôs-se a caminho da sua aldeia.

Seria impossível a crianças daquela idade sobreviverem sozinhas por muito tempo. O mais provável era que morressem caindo de um dos muitos penhascos que circundavam o local. Encontrar um caminho de saída estava também fora do seu alcance por ser necessário ver para além de matos altos e impenetráveis. O povoado mais próximo encontrava-se a mais de uma hora de caminho e as suas gentes receavam as florestas antigas, nas quais nunca se aventuravam. Apenas caçadores errantes, sem eira nem beira, passavam ocasionalmente por ali. Eram considerados homens de má rês, com quem os locais não falavam publicamente, limitando-se a trocar, às escondidas, tecidos e utensílios por peças de caça.

Maria Padilha, embora sentisse grande afecto pelos seus filhos, como viria mais tarde a confessar, decidiu abandoná-los por desejo de iniciar uma nova vida com um rapaz que conhecera há algum tempo e também, principalmente, por necessidade de despistar suspeitas. Seis anos antes, tinha partido da sua aldeia com um dos ditos caçadores que a tinha feito sonhar. Saíu de um dia para o outro. A mãe, sabendo o que se passava, preferiu anunciar que a filha tinha ido para casa de uma tia que se encontrava bem instalada, não muito longe de Braga, a mais de quatro dias de caminho. Assim, quando passados três anos, Maria regressou com as duas crianças ao colo, fez-se saber ao povo que eram filhos de uma prima, que tinham nascido doentes e que por recomendação do físico, deveriam mudar-se para ares serranos.

Agora que as crianças se encontravam bem de saúde e o rapaz de uma aldeia vizinha, filho de uma lavrador com posses acima da média, tinha manifestado intenções sérias de casamento, havia que devolvê-las à pretensa família. Maria de Jesus seria incapaz de se livrar dos miúdos de uma forma expedita. A ideia de lhes espetar suavemente uma faca na garganta durante a noite, após uma ceia de sopas de cavalo cansado, ocorreu-lhe diversas vezes, por resolver rápida e definitivamente o assunto. Mas o seu instinto de mãe e a ideia de poder vir a penar no inferno para toda a eternidade fizeram-na optar por uma solução diferente.

Lembrava-se com bastante precisão deste local, do tempo das suas andanças com o caçador. Conforme este lhe havia referido, não mais de três ou quatro homens sabiam a maneira de lá chegar, sendo que um deles era o seu pai e outro o avô, que aliás não via há mais de vinte anos e não tinha sequer notícia de estarem vivos. Era um sítio que lhe inspirava sentimentos estranhos; tanto lhe induzia um medo profundo como lhe proporcionava uma sensação de paz indescritível. Nas noites em que ficava sozinha numa cabana, enquanto o seu companheiro distribuía armadilhas nos estreitos trilhos da floresta que os animais percorrem, sentia-se gelada de pavor, era assaltada por imagens tenebrosas e parecia-lhe ouvir sons cuja origem nunca conseguiu identificar. Em contrapartida, nas manhãs de primavera em que lhe era dado contemplar as curiosidades da natureza em explosão ou em que comemorava devidamente a chegada do companheiro carregado de caça, considerava este local abençoado e dava graças por ter nascido.

Foi assim que lhe ocorreu a ideia de abandonar os filhos neste lugar, tendo decidido passar vários dias fora de casa, simulado uma viagem ao Norte e sobrevivido como tinha aprendido com o caçador. Na tarde em que os deixou, regressou a casa, horas depois de o sol se ter posto. No dia seguinte deu início à sua nova vida e nunca falou sobre o assunto com a sua mãe, embora vivessem paredes meias.

Dos anos que se seguiram, não são conhecidos grandes detalhes. Casou com o referido rapaz, Bernardino Rosa, e foram viver para uma fazenda agrícola, perto de Gondramaz, que o pai do noivo cedeu. Maria de Jesus engravidou por mais duas vezes, embora nenhuma das crianças tenha vingado. Foram enterradas ambas no cemitério local em 1656, com poucos dias de intervalo, por terem presumivelmente padecido as duas da mesma doença.

Sabe-se também que alguns anos mais tarde, de acordo com testemunhas idóneas, esta mulher começou a ausentar-se da fazenda em alturas em que o marido ia vigiar os rapazes que tomavam conta dos seus rebanhos na serra. Regressava visivelmente perturbada, refugiava-se em casa durante algum tempo e recomeçava posteriormente a sua vida normal. Os períodos de ausência tornaram-se cada vez mais frequentes e foi igualmente vista a receber visitantes, vindos de diversos lugares da região. Houve quem a visse ainda, a sair de casa ao fim da tarde, com grupos de seis e sete mulheres e regressar sozinha no dia seguinte. Seguidamente, Maria Padilha, que ostentava de forma progressiva e inexplicável, sinais de riqueza, tornou-se receada por parte dos habitantes da aldeia por pairarem sobre ela, rumores de bruxaria e pacto com o diabo.

No final da década de sessenta, foi acometida de um grave achaque que a manteve agarrrada à cama durante um Inverno inteiro. Assim que se encontrou em condições de se deslocar a Miranda do Corvo, confessou-se com o Padre Silvino, pároco de virtude reconhecida que havia estudado cânones em Coimbra e leccionado no seminário de Freixo.

Durante a confissão, Maria de Jesus expôs ao confessor os pecados que a atormentavam. Referiu o abandono das crianças e os segredos que escondeu ao seu marido. Revelou que se sentiu impelida a voltar repetidamente ao local do abandono, onde tinha contactos com o demónio, que a tentava e seduzia, contra a sua vontade. Indicou que, por intemédio de uma conhecida de longa data, Ana Vicente, começou a receber visitas de pessoas que lhe faziam oferendas e pediam intercessões.

O Padre Silvino, ouvi-a mais do que uma vez em confissão, considerou que se tratava de um caso reservado e que por esse motivo, não lhe era permitido proferir a absolvição, conforme constava explicitamente das Constituições. Por ser um homem sensato e escrupuloso, registou abundantes notas sobre o assunto, que ficaram retidas para a posteridade, entre as páginas de um in-fólio, vendido em leilão no ano de 1877.

Não são conhecidos os desenvolvimentos que levaram a que Maria de Jesus Padilha fosse posteriormente indiciada pelos crimes de arte mágica, adivinhação e pacto com o demónio bem como por negligência no cuidado dos filhos que tivera de Bernardino. Passou dois anos no calabouço da Inquisição de Coimbra, após o que foi relaxada ao braço secular e sentenciada ao desterro por dez anos em Angola. Porém, três meses após a emissão da sentença, a pena foi-lhe comutada em desterro vitalício para o bispado de Évora, em virtude do arrependimento e conduta exemplar que evidenciou durante o período de cativeiro.

Dos autos constam diversos testemunhos, em especial o de Ana Vicente, que identifica claramente o local, apresentado nas imagens, em que ocorriam as práticas mágicas. Grupos de mulheres, novas e velhas, eram conduzidas pela Maria Padilha por caminhos tortuosos, durante a noite, até uma clareira no meio de um enorme souto inclinado. As mais novas sentavam-se em roda de uma pequena fogueira, e as mais velhas, um pouco mais atrás. A Maria de Jesus afastava-se e nunca presenciava o que se seguia. Algum tempo depois, surgiam dois demónios sob a forma de homens nús, muito peludos e que uivavam como lobos. As mulheres cantavam orações litúrgicas, enquanto os lobisomens dançavam e comiam e bebiam o que as mulheres lhes haviam levado. Em seguida, eram possuídas repetidas vezes pelos demónios que as deixavam inconscientes e nalguns casos, a espumar da boca. Por regra, regressavam a casa na mesma noite e segundo consta, os seus males eram resolvidos, fosse a doença de um filho, um marido ligado ou uma desavença de heranças.

Nestas imagens pode ver-se o souto, uma levada de água alimentada pelo referido ribeiro, uma capela por onde passavam as caminhantes e um castanheiro que tem um sinal da cruz gravado.

 
 
 
 
 
   
 
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