
Memória e Esperança
Quando
no Verão passado (2005) assistia no telejornal a mais um episódio da saga dos
incêndios florestais em Portugal, fui de repente assaltado por uma angústia em
tudo semelhante à que sentirá quem vir a sua casa a ser devorada pelas chamas.
Era o Vale do Zêzere que estava a arder. Pelas imagens que se sucediam,
conseguia perceber que se tratava de uma catástrofe. Mais tarde, já no final de
Agosto, viria a constatar, no terreno, que a dimensão era afinal, apocalíptica.
O fogo tinha chegado ao Vale da Candeeira, à Serra de Baixo, Nave da Mestra,
Vale do Conde, Poço do Inferno, Cântaro Gordo; até os Charcos tinham sido
parcialmente afectados e ainda se viam remoinhos fumegantes; o Covão da Ametade
tinha escapado por milagre, mas estava rodeado por uma paisagem desoladora.
Foi no
rescaldo emocional destes acontecimentos que surgiu a ideia de promover uma
exposição de fotografia. A princípio, parecia fazer sentido mostrar apenas,
imagens de lugares que já não existissem tal como eram representados, com o
objectivo de preservar a memória de
um património natural perdido, que é também, em grande parte, um património
sentimental. Mas, à medida que o luto ia sendo ultrapassado, ganhou força a
opção de incluir algumas, poucas, de sítios que se mantêm inalterados, abrindo
assim uma oportunidade à esperança.
Uma larga maioria das paisagens presentes nesta exposição, já não existe, de
facto, tal como aqui as vemos, mas é intencional não distinguir umas das
outras.
As
fotografias seleccionadas não obedeceram também a qualquer critério documental.
Correspondem a uma perspectiva estética pessoal, sem pretensões técnicas ou
artísticas. Esta exposição é a que eu gostaria de ter visto aos 14 anos, quando
dava os primeiros passeios a pé e me começava a apaixonar pela Serra. Desde
essa altura que procurei estes lugares e os fotografei, e é de forma consciente
que opto por, sempre que possível, não incluir o elemento humano ou as suas
construções. O que nalgumas pessoas desperta subtilmente o terror ancestral da
natureza intacta, em mim, revela uma harmonia sublime, incomparável a qualquer
outra realidade artificial. Fico totalmente satisfeito quando as minhas
fotografias induzem, em quem as vê, o desejo de estar nesses sítios e a
predisposição para se deixar tocar pelo seu encanto. E vem-me à ideia a frase
de Cézanne “Il faut qu’on se dépêche, si on veut encore voir. Tout est en train
de disparaître.”
Por
isso, o verdadeiro objectivo desta iniciativa talvez seja, no fim de contas,
tentar despertar a consciência ecológica que existe em cada um de nós, por mais
funda ou reprimida que esteja. Uma vez que, na vida, não nos podemos dedicar a
todas as causas a que aderimos, tenho escolhido esta, sempre que posso e
consigo. Defendo a opinião de que a Natureza, tem valor e direitos intrínsecos,
não dependentes da sua utilidade prática ou económica.
E
assim, dou por mim a pensar que, afinal, os incêndios não deixam de ser um
fenómeno natural há muito anunciado, e que se destinam a repor um equilíbrio
perdido. Dentro de 50 anos, os sítios ardidos poderão ter recuperado toda a
antiga magia, caso não tenha entretanto sido aberta mais uma estrada, realizado
um “investimento”, ou construída uma “estância”, estas sim, feridas que deixam
cicatrizes irreparáveis. Se esta exposição puder contribuir, ainda que
marginalmente, para a preservação do que resta de natural na Serra, então a minha
consciência ficará mais tranquila e com a sensação do dever cumprido; tal como
a de quem protege a sua casa do fogo porque, como alguém dizia, não somos do lugar
em que nascemos, mas sim, onde fomos felizes.
Alberto
Mesquita
Março de 2006
Os meus agradecimentos à Câmara Municipal da Covilhã por ter prontamente disponibilizado o espaço para esta exposição.
Alberto
Mesquita, nascido no Porto em 1964. Estreante absoluto em exposições
fotográficas, vive actualmente em Lisboa e é informático nas horas pagas. Sem
ambições artísticas nem grandes preocupações técnicas, fotografa um só tema: as
paisagens naturais de Portugal; ou mais precisamente, os seus vestígios. Há
quase 30 anos que percorre a pé as serras do Gerês, Estrela, Lousã, Candeeiros,
Caramulo, em que as fotografias cumprem a função de alimentar a memória desses momentos e lugares e
permitem a esperança de que se
conservem, porque só se preserva o que se gosta e só se gosta quando se
conhece.
Site pessoal em
www.albertomesquita.net
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